Gente esse texto é do meu amado Carlos Drummond, embolo de rir toda vez que leio. Não poderia deixar de compartilhá-lo com vcs. Divirtam-se:
O Professor Limão
- Olha o Limonex, vem geladinho. A melhor pedida contra a poluição!
Como um banhista lhe perguntasse que é que tem a ver o suco de frutas cítricas com a poluição, o vendedor respondeu:
Como um banhista lhe perguntasse que é que tem a ver o suco de frutas cítricas com a poluição, o vendedor respondeu:
- Primeiro, com a devida licença, me favoreça uma sombra na sua barraca. Isso de pé na areia e lata nas costas o dia inteiro é fogo na Martinica. Ai! Obrigado, ilustre.

- Então? Explica o negócio.
- Da polu? Ora, é o seguinte. Poluição não dá só na água, por causa do esgoto, e no ar, por causa da fumaça. Isto é a poluição de fora, o doutor sabe. Tem também a poluição de dentro, a imundície do coração, a fumaça, os gases, essa porcaria toda que a gente carrega no miolo da gente e os outros não manjam, que a gente mesma não manja, mas funciona. E envenena o corpo e o fundo do fundo de dentro. Morou?
- Mais ou menos. E o limão?
- Ora, doutor, o limão corta. Limão é fruta sagrada, tem um princípio ácido que derrete tudo quanto é impureza. Sujeira de dentro não pode com limão. O que eu digo afianço. Tudo isso é muito velho e sabido dos que sabem. De novo só tem essa palavra poluição, que eu comecei a empregar em dezembro, porque está na onda.
-Antes, o que é que você dizia?
- Eu digo o que me vem na boca. Louvado seja o Senhor do Bonfim, minha boca não é de ofender as madamas e cavalheiros. Antes de entrar nessa jogada de vender limonex, eu já respeitava o limão como limpador da alma. Aconteceu comigo, o doutor acredite. Andei uns tempos do lado do demo, com raiva de uma nega que me passou pra trás. Eu via a nega gingar agarrada com outro, e tinha vontade de cortar os dois em fatia de presunto, sabe como é? Fininho, fininho. Me dominava, de que maneira? Infernando a vida dos outros. Pontapé no gato, pontapé no cachorro, cacholeta no vizinho. Botava pra correr quem viesse me dar conselho. Me encarei no espelho e taquei um murro nele: a mão ficou uma ferida. E outros etcéteras. Nisso a minha nega (porque eu já tinha outra nega no lugar daquela, naturalmente) me deu pra beber um copo de caldo de limão puro e disse: “Toma de um gole, Severino e lava tuas mazelas com o poder de Salomão encoberto no limão”. Fiz uma careta, engoli. Quando acabei, estava rindo, rindo pra nega, rindo pro gato e pro vizinho, rindo pra tudo, uma felicidade. Nunca mais pensei com raiva na tal crioula dos meus pecados.
- Bebeu e mudou, na hora?
-Bom, na hora, na hora mesmo, não. Me senti mais pacificado, isso foi. E toda manhã a nega me dava um copo. No fim de um mês, eu era uma limpeza de alma, um jardim de flores naturais. Aí me ofereceram esse serviço de limonex. Como que não havia de topar? Topei. Salve o limão.
- É admirável.
- Não é? Então, vendo o meu limonex e dou de presente a notícia desse bem secreto do limão. Conversa que eu tenho com fregueses como o doutor, que me prestam a devida atenção. No que sou muito grato a sua senhoria. De tanto falar virtudes do limão, ganhei apelido. Me chamam de Professor Limão, bondade deles. Tem aí um colega que é o Doutor Limão, um cara gozado, eu cá trabalho na base da seriedade. Na ciência do positivo.
E, despedindo-se:
- Com a devida licença, muito obrigado, cidadão. Vou pra fornalha. Professor Limão, às suas ordens, do Leme ao Posto Seis, no fogo do verão.
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